Textos de Lúcia Helena de Camargo.

Publicado no Jornal do Comercio em 2004.

Em sua certidão de nascimento, o bairro tem 337 anos de idade. Data de fevereiro de 1667 a fundação da Igreja Nossa Senhora da Penha de França, construção que deu oficialmente início à região. O povoamento, porém, começou bem antes. As primeiras referências históricas são de 1532, quando se estabeleceram nos campos do Ururaí (hoje pertencente ao Tatuapé) os primeiros moradores, com posse de sesmarias. O historiador Sylvio Bomtempi, em seu livro Penha Histórica (editado pela Universidade Cruzeiro do Sul, São Paulo, 2001) relata que em 1560 o padre José de Anchieta nomeou o local, então uma aldeia de índios catequizados, como São Miguel de Ururaí. Vinte anos mais tarde há registro de que aos religiosos foi cedida outra sesmaria.

Segundo Maria Cândida Vergueiro Santarcangelo, no livro Penha de França 1668-1968, também a primeira igreja da Penha pode ter sido construída mais cedo do que a data oficial indica. “Muitos moradores deixavam a vontade expressa de serem sepultados na Igreja de Nossa Senhora da Penha de França, como era costume de outrora. Alguns testamentos datavam da primeira metade do século 17, o que faz supor que a capela tenha sido erguida entre 1630 e 1650”. Curiosamente, permanece gravada no pórtico de entrada da igreja a data 1682. De acordo com Bomtempi, essa inscrição foi feita na reforma de 1937. “Nessa época, não haviam documentos que comprovassem a verdadeira data de fundação”, explica.

“Hoje se poderia corrigir essa inexatidão”. A construção foi obra do padre Jacinto Nunes de Siqueira, que a ergueu no local da antiga capela. A matriz não apenas tornou- se o marco inicial da Penha, mas também ajudou a região a prosperar. O próprio padre, ao morrer, legou suas propriedades à igreja. Em 1684, a abertura de seu testamento revelou que ele deixara para a paróquia, além das terras que ficavam “pegadas ao ribeirão ari-Candivay”, atual Aricanduva, a casa em que morava, cinqüenta vacas, a quantia de quinhentos mil réis e doze índios “que não são senhores de toda a sua liberdade”.

Existem diversas versões para a origem do nome da santa que o viajante francês levava. Uma delas diz que nasceu na França, como“Notre Dame de France”, próximo aos grandes montes, sendo chamada Nossa Senhora do Monte. Assim, no Brasil tornou-se Nossa Senhora da Penha. Segundo o dicionário, Penha significa “grande massa de rocha isolada e saliente”, “penhasco” ou “penedo”. Os devotos começaram a vir de São Paulo, de outras cidades e até de outros Estados. E não apenas rezavam na igreja, mas também, a exemplo do padre Jacinto, legavam parte de seus bens a Nossa Senhora da Penha de França. O padre assinava recibos das doações recebidas. Com base neles, pode-se concluir que a igreja não tinha problemas financeiros na época.

Entre os que procuravam índios para gerar mão-de-obra escrava, destaca-se a atuação do bandeirante seiscentista Domingos Leme, possuidor de sesmarias recebidas, em 1643, do capitão-mor Francisco da Fonseca Falcão. Outro desbravador radicado na região foi Amador Bueno da Veiga, dono de muitas terras desde Guarulhos até a Penha, ao longo do Vale do Rio Tietê. Hoje, dá nome a uma avenida que corta o bairro.

No dia 15 de setembro de 1796, a Penha foi elevada à categoria de freguesia, integrando regiões que atualmente formam os bairros Guaianases, São Miguel, Ermelino Matarazzo e Vila Matilde.

PADROEIRA DE SÃO PAULO

A devoção a Nossa Senhora da Penha de França continuava a levar paulistanos à igreja. E, em determinados períodos, era a própria imagem que era transportada. Como em 1768, quando um grande surto de varíola tomou São Paulo e a Câmara Municipal interveio para levar a imagem à Sé com intuito de fortalecer as rezas que pediam o fim da doença.

Reconhecendo a importância da Nossa Senhora da Penha de França para a cidade, a Câmara encaminhou requerimento às autoridades diocesanas elevando-a à padroeira da cidade de São Paulo. Em 1876, ocorreu a última ida da imagem para a Catedral. A partir dessa data, foram retomadas as peregrinações à Igreja da Penha. Os cortejos, que partiam do centro da cidade, chegavam ao bairro em maior número em 8 de setembro, quando se comemora a natividade da santa.

Um episódio com o padre Jacinto contribuiu para que aumentasse ainda mais a devoção. Ele se salvou de um acidente no Ribeirão Aricanduva e o episódio ganhou proporções milagrosas. O propalado milagre levou à criação da sala de ex-votos, para acomodar as centenas de peças trazidas pelos fiéis em romaria, e acabou por conferir à Penha, em 1909, o título de santuário mariano, devido ao grande número de peregrinos que procurava a igreja.

A Matriz foi elevada a Santuário Episcopal, passando a ser designada Santuário de Nossa Senhora da Penha de França e, em 1934, sofreu uma grande remodelação para abrigar mais fiéis. A Igreja Nossa Senhora Penha de França, já bastante descaracterizada de sua construção original, não mereceu tratamento como patrimônio histórico. Em 1982, foi inclusive ameaçada de ser derrubada, tamanho o estágio de deterioração em que se encontrava. Mas a comunidade interveio e a igreja foi mantida, passando por uma drástica reforma. Nessa época, já tinha perdido a condição de matriz para a Basílica Nossa Senhora da Penha de França, cuja pedra fundamental foi assentada em 1957.

Localizada no número 199 da Rua Santo Afonso, a basílica fica a duas quadras da primeira igreja. Foi construída em razão do crescimento da comunidade e abriga a imagem original de Nossa Senhora, aquela que, segundo a lenda, teria escolhido o bairro como moradia definitiva. Edificação grandiosa, comporta 7 mil fiéis. O herdeiro espiritual do precursor padre Jacinto Nunes Siqueira é padre Carlos Calazans, paulistano de 68 anos, que serve na paróquia da Penha há três décadas. Ele atesta que, embora as romarias tenham cessado, a devoção se mantém, com os fiéis presentes às missas todos os domingos.

Em 16 de junho de 1802, foi fundada a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, construída por escravos negros com dinheiro de esmolas, para que pudessem freqüentar uma igreja sem sofrer a segregação religiosa. Recém trazidas da África, as levas negreiras causavam temor em muitas famílias, pois se dizia que os negros traziam consigo a varíola. Nas primeiras décadas do século 18, as autoridades paulistanas conseguiram estabelecer um acordo com os comerciantes de escravos: que os negros ficariam em quarentena antes de entrar na cidade. Esse período de espera era feito no Caminho da Penha. Diante de sua importância para a região e da manutenção de sua estrutura de taipa de pilão, a igreja foi tombada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat), em 1982. As manifestações religiosas se mantiveram ao longo dos anos. Embora com menos entusiasmo do que no passado, o dia 8 de setembroé, todos os anos, comemorado na comunidade. Até meados de 1970, na Avenida Celso Garcia havia o desfile de carros que passavam apinhados de gente rumo ao Santuário de Nossa Senhora da Penha de França. Nos arredores da igreja eram armadas barracas de guloseimas. Os devotos compravam muitos santinhos e medalhas, levados depois para o vigário benzer. Mas ali também se instalavam jogadores profissionais, com roletas, vísporas e outros jogos da época.

A festa da padroeira de 1967, quando o bairro completava 300 anos, foi particularmente luminosa. Na ocasião houve a inauguração da iluminação a mercúrio da Rua Santo Afonso, local da basílica, e da Praça Nossa Senhora da Penha, onde fica a igreja original.

LIMITES E VIZINHANÇA

O bairro é limitado pelo Ribeirão Aricanduva, estendendo-se até São Miguel Paulista e, do outro lado, até Guarulhos. Essa proximidade foi a principal razão para a lei provincial de 1880, que anexava a Penha ao município de Guarulhos. A população não gostou e exigiu a reintegração a São Paulo, que ocorreu em maio de 1886.

A partir da igreja, localizada no alto do outeiro, começaram a se traçar aquelas que são hoje as ruas mais movimentadas da Penha. A capela definiu as duas principais vias públicas do bairro. A rua de baixo, foi durante algum tempo chamada simplesmente de Rua, depois Rua Direita, Rua Campos Sales e hoje é a Avenida Penha de França. À frente, a Rua do Meio, que hoje é Comendador Cantinho. E a Rua de Cima é a atual João Ribeiro.

O trajeto para se entrar ou atravessar o bairro continuava a ser feito pela Estrada da Penha – atuais avenidas Rangel Pestana e Celso Garcia. Durante muito tempo, essa rota serviu não apenas a fiéis, viajantes e sertanistas, mas também para a circulação de mercadorias e de comércio de animais.

A privilegiada topografia da Penha teve parte importante na sua história e no desenvolvimento da economia. Com 1.500 metros de altitude, a Penha começou a ser procurada no início do século 20 por famílias endinheiradas em busca de ares mais saudáveis, recomendados pelos médicos para recuperação de doenças respiratórias. Alguns compravam chácaras na região e instalavam ali suas casas de veraneio, outros decidiram por se mudar para o local. Muitos trocaram suas mansões dos Campos Elíseos pela Penha.

Uma das senhoras da aristocracia paulistana a migrar para a Penha foi Dona Carlota de Melo Azevedo, que possuía várias chácaras na região. E o primeiro telefone do bairro foi o instalado em sua residência.

Também em razão de sua geografia, a Penha seria o local de pouso, em 1822, do então príncipe regente D. Pedro I, que vinha do Rio de Janeiro. Segundo o livro A capital da Solidão – Uma história de São Paulo das Origens a 1900, de Roberto Pompeu de Toledo (Editora Objetiva, 2003), ele deixou o Rio no dia 14 de agosto, parando com sua comitiva para pouso em várias cidades doVale do Paraíba. “No décimo dia de viagem, 24 de agosto, chegaram ao arrabalde da Penha, de onde se tem uma vista de São Paulo, lá longe, com as pontas das torres das igrejas recortando-se contra o céu. Ali acamparam”. No dia seguinte, ele assistiu a uma missa na igreja matriz e só então seguiu viagem para São Paulo, onde duas semanas depois, no dia 7 de setembro, proclamaria a independência do Brasil, não muito longe dali, às margens do Riacho Ipiranga.

Em 1886, foi a vez de D. Pedro II e da Imperatriz visitarem o bairro. Foram recepcionados pelas autoridades locais, pelo vigário da paróquia padre Antônio Benedito de Camargo, pelo Coronel Rodovalho e professores e alunos de escolas locais.

Anos mais tarde, aconteceria mais do que a simples visita de um governante: a Penha chegou a funcionar como sede do governo paulista. Em julho de 1924, com a revolta tenentista, os rebeldes ocupam a cidade durante quase um mês, pedindo o fim do poder das oligarquias, reivindicando moralização do governo, voto secreto e independência do poder legislativo. O presidente de São Paulo (título do governador, na época), Carlos de Campos, refugiou-se na Penha e usou o posto policial no Largo do Rosário para despachar durante a revolução de 1924.

EXPANSÃO COMERCIAL E IMOBILIÁRIA

Nos anos seguintes, a Penha teve grande desenvolvimento e foi iniciada uma expansão imobiliária, com prédios tomando o lugar das antigas chácaras. O bairro residencial foi se transformando em um centro comercial para Zona Leste da cidade, possuindo além das já tradicionais lojas de rua, o Mercado Municipal, um shopping center inaugurado em 1992 e muitos vendedores ambulantes, cuja presença é motivo de eterna desavença com os comerciantes locais.

Nas imediações da igreja, prosperaram desde cedo as lojas de artigos religiosos. A zona comercial circunscrevia-se à Rua da Penha (atual Avenida Penha de França), Rua Dr. João Ribeiro e Praça 8 de Setembro. Depois de 1930, o comércio penhense incrementou-se rapidamente, transformando o bairro em importante núcleo comercial, servindo não só à sede do distrito como às vilas satélites.

De 1940 a 1950, abriram as portas na Penha diversos grandes magazines como Rivo, Garbo, Ultralar, Singer, Eletro, Pernambucanas, Riachuelo, entre outros. Grande parte das lojas existe até hoje. Muitas diversificaram os negócios, vendendo de velas a prendedores de roupas, de móveis a chinelos de plástico. Ao longo da Avenida Penha de França, é notória a presença de bazares de comércio popular, principalmente aqueles em que os artigos custam R$ 1,99.

Paralelo ao aumento de estabelecimentos comerciais, crescia a população ali estabelecida. As antigas chácaras foram dando lugar a prédios e residências menores. A rapidez da expansão imobiliária é uma das explicações para a notória falta de áreas verdes do bairro. “Quase todas as árvores existentes estavam plantadas dentro das chácaras particulares. Os novos proprietários as derrubavam para aumentarárea vendável de seu empreendimento. Como não havia preocupação do poder
público em fazer praças e parques, o bairro acabou ficando com escassa aérea verde”, explica o engenheiro José Donato Feola, estabelecido na região desde 1945.

O começo dos anos 70 foi pródigo para a cultura no bairro. Biblioteca Municipal Guilherme de Almeida, no largo do Rosário, com acervo de 37.600 livros, foi construída após um abaixo-assinado que reuniu 50 mil assinaturas. Ainda em 1970, o bairro ganharia a Casa de Cultura da Penha e o Teatro Martins Pena.

Na década de 1980, as transformações ocorreram principalmente na área imobiliária. O bairro começou a se verticalizar, com o surgimento de muitos prédios residenciais e comercias, além de condomínios fechados. A paisagem da Penha chegou modificada aos anos de 1990. O outeiro, antes marco indiscutível na topografia, começava a ser escondido pelos prédios.

Em 1992, a inauguração do Shopping Center Penha traria novo fôlego à região. “O shopping foi uma das melhores coisas que aconteceram para a Penha: no local onde antes havia uma indústria metalúrgica poluente, agora temos um centro de compras que cuida dos arredores”, elogia Folco. O comércio e os serviços são as principais atividades econômicas na região, que hoje conta com boa infra-estrutura nas áreas de saúde e educação, com nove escolas estaduais 13 particulares. Há dez postos de saúde, um hospital (Hospital Nossa Senhora da Penha, inaugurado em 25 de janeiro de 1954). Está prevista para os próximos anos a inauguração do Campus Leste da Universidade de São Paulo.

O bairro tem atualmente 124.292 habitantes, de acordo com dados do censo de 2000 feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No entanto, a região perde, a cada ano, 0,93% de sua população. A causa do êxodo seria a busca por melhores oportunidades em outras regiões e até em outras cidades. “Apesar das melhorias que tentamos implementar, a Penha precisa de mais investimentos para conseguir manter a população jovem aqui”, defende o subprefeito Luiz Barbosa de Araújo.
O comércio é o principal motor da vida econômica na Penha atualmente. No passado, predominavam as lojas de velas e artigos religiosos. Hoje conta com um total de 2.862 estabelecimentos de todos os tipos, que vendem de roupas finas a artigos
de R$ 1,99. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), levantados no censo de 2000, o comércio lidera a lista daqueles que mais empregam na região, respondendo por 7.870 empregos efetivos. Assim como em grande parte dos centros urbanos do País, apenas os serviços oferecem número semelhante de postos de trabalho, com 7.831 empregados.

A indústria vem em seguida: são 6.466 pessoas trabalhando nesse ramo. Uma das primeiras fábricas a se instalar na região foi a Nova Vulcão, empresa local há mais tempo cadastrada na Associação Comercial de São Paulo, associada há 70 anos. Fundada em 1924, com o nome de fábrica Vulcão, pelo alemão Carlos Müller na Rua das Palmeiras, três anos depois já precisou de uma sede maior e se mudou para a Rua Joaquim Marra, na Vila Matilde, onde funciona até hoje. Entre os diversos imigrantes empregados, estava Guilherme Borgiani, italiano que se revelou excelente vendedor e acabou sendo um dos responsáveis pelo crescimento do mercado no interior de São Paulo na década de 1940.

Com base em Campinas, ele chegou a responder por 80% do total de vendas da empresa. Em 1954, Müller decidiu se desfazer dos negócios e Borgiani comprou a Vulcão. O ex-funcionário que passou a patrão diversificou a linha de produtos e estabeleceu novos conceitos. Em 1963, Guilherme transferiu a direção da fábrica para o filho Sérgio e o genro Alberto Giorgi, que a rebatizaram de Nova Vulcão. Ambos dirigiram juntos a empresa até 1995, ano em que morreu Giorgi. Desde então, sua mulher, Sônia Borgiani, assumiu o lugar do marido na fábrica.

Nos anos 70, a Nova Vulcão fez clientela dentro do mercado industrial, investindo em desenvolvimento de produtos específicos e sob encomenda. A área se tornou a principal desde então, com a produção de tintas e vernizes especiais para máquinas industriais e agrícolas. A Nova Vulcão segue o modelo de administração familiar característico, mas se mantém atenta ao mercado.“Procuramos nos atualizar sempre, porque no nosso ramo as novidades aparecem a todo instante”, diz Sérgio Borgiani, hoje no cargo de presidente.“Nossa propaganda é boca a boca: sempre funcionou assim”, sustenta ele. “Fomos a primeira empresa nacional de tintas a ter a certificação ISO 9.000.”


DONA MADALENA, ESPECIALISTA EM MEIAS

No mesmo ano em que era fundada a Vulcão, no centro da Penha nascia a tradicional loja Meias Penha. Munira Abrão Neme Feola comanda, hoje, o estabelecimento da família, aberto por seu pai, Chafic Abrão, em 1924, na Avenida Penha de França.
Segundo a atual proprietária, “vem gente de outros bairros de São Paulo, de outras cidades e até do exterior” só para comprar com eles.

Atualmente instalada na Rua João Ribeiro, 449, a loja levou para o novo endereço as características físicas da primeira.“A cara do lugar nunca mudou: foram mantidas a arquitetura e a disposição das mercadorias, e isso ajudou a manter a identidade”, avalia o engenheiro Augusto Feola, filho de Munira. O sírio Abrão, morto há cinco anos, chegou ao Brasil em 1914, em pleno começo da Primeira Guerra Mundial, junto com outros imigrantes. Sua mulher, Madalena, comandava o atendimento e conhecia todos os clientes pelo nome. Apesar das dificuldades, Abrão nunca desistiu e os clientes se mantiveram fiéis. “Algumas mulheres mais idosas ainda chegam e perguntam por dona Madalena, a simpática senhora que entendia tudo de meias”, conta Alessandra Feola, filha de Munira. “Isso ocorre com freqüência… e minha mãe morreu há 14 anos”, completa Munira.


CASAS, PRÉDIOS, SALÕES

O marido de Munira, José Donato Feola, é um penhense que ajudou a construir o bairro, literalmente. Nascido em Cordeirópolis, interior de São Paulo, formou-se em engenharia, mudou-se para a Penha em 1945, e começou a comandar obras. Em 1968, abriu seu próprio empreendimento.

A Construtora Feola foi responsável por diversas obras no bairro e imediações, como a remodelação do balneário do Clube Esportivo da Penha, construção do prédio da Gazeta Penhense, do Fórum da Penha, o salão de festas Big House, entre outros. José Donato faz parte da associação Viva o Centro da Penha, ajudou a elaborar o projeto de construção da nova linha de trem para o bairro e participa das reuniões nas quais discute, junto com técnicos da subprefeitura, o Plano Diretor Regional. “Tudo o que conquistei na vida está aqui: minha mulher, meus dois filhos, meu patrimônio; preciso zelar pelo lugar que contém toda a minha história”, diz. Alguns dos prédios que Feola construiu, Marco Antônio Jorge vendeu.

O dono da imobiliária Marco Antônio Imóveis, diz que não troca a Penha por nenhum outro lugar.“Aqui a gente conhece todo mundo,é como no interior: as pessoas de vez em quando fazem fofoca, mas se ajudam e se querem bem.” Ele conta que nos últimos cinco anos o negócio de imóveis tem ficado mais difícil. “os aluguéis baixaram, porque a oferta aumentou muito e o poder aquisitivo diminuiu”, analisa. Mas se diz confiante no futuro.“Tenho perseverança e sei que as coisas vão melhorar.”

ESPORTE PREFERIDO: O TRABALHO

Tradição e bons produtos é o que oferece também Rubens Bunas, que abriu sua loja, Rubens Magazine, em janeiro de 1963, na Praça 8 de Setembro, centro da Penha. Na década de 1970, transferiu-se para o número 83 da Rua Gabriela Mistral, e passou a vender, em vez de roupas em geral, trajes e artigos esportivos. O estabelecimento ganhou o nome de Sport Rubens.

Bunas conta que a mudança de ramo de negócio, que começou com a venda de agasalhos escolares e encomendas de camisas de clubes de futebol, ocorreu gradualmente. “Chegou uma hora que os clientes vinham aqui procurar só roupas e materiais esportivos, então concluí que era o momento de me especializar”, relata.

Atualmente, em suas prateleiras encontram-se de camisas de clubes a troféus, de bolas de pingue-pongue a protetores dentais para a prática de boxe. E ele promete conseguir qualquer artigo solicitado pelo cliente. “Se eu não tiver na loja, aceito a encomenda e busco onde for necessário”, garante. Bunas diz que não tira férias e, ironicamente, não pratica esportes. “Meu esporte é trabalhar.”

NOVOS EMPREENDIMENTOS

Em meio a lojas tradicionais com várias décadas de idade, o Shopping Center Penha exibe, no número 304 da Rua Dr. João Ribeiro, o vigor da juventude. Situado no centro do bairro, circulam por ele todos os meses cerca de 1,5 milhão de pessoas. O centro de compras foi inaugurado em 19 de outubro de 1992 e conta hoje com 220 lojas, distribuídas em dois pisos. Além de uma central de cursos e feiras culturais, promove exposições de flores e outros eventos.

Entre as iniciativas com vistas ao futuro, que envolvem desde empresas tradicionais, novos comerciantes e a comunidade ao redor, está a capacitação de representantes de Organizações Não Governamentais (ONGs) para o desenvolvimento, construção e hospedagem de sites gratuitos. O curso será ministrado na unidade especializada em Terceiro Setor do Senac São Paulo, que fica na Penha. Nomeado de Site Social, o projeto pretende treinar funcionários e voluntários vinculados ao Projeto Redes Sociais do Senac para que construam páginas na internet e, assim, divulguem mais e melhor as entidades.“Acredito que esse projeto irá contribuir para a inclusão digital, dará maior visibilidade e fortalecerá as organizações de base comunitária”, afirma Jorge Duarte, gerente da unidade especializada em Terceiro Setor do Senac.

A Distrital Penha da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), fundada em 13 de novembro de 1951, foi a segunda distrital criada, logo depois de Pinheiros, estabelecida no mesmo ano pelo então presidente Henrique Bastos Filho. Com sede no número 199 da movimentada Rua Gabriela Mistral, a distrital conta com 1.400 associados e sua jurisdição compreende, além da Penha, os bairros de Vila Matilde, Cangaíba e Arthur Alvim. Não por acaso uma das vias que desembocam na Rua Gabriela Mistral, em trecho próximo à distrital da Penha, é justamente a Coronel Rodovalho, homenagem ao importante empreendedor paulistano Antonio Proost Rodovalho – que durante muitos anos teve casa no bairro – e foi
fundador da ACSP, em 1894.

Hoje, a entidade, presidida pelo empresário Guilherme Afif Domingos, conta com 15 sedes na capital paulista, que atuam em prol dos empreendedores – e da comunidade. O empresário Ivan Lorena Vitale é o atual diretor superintendente da Distrital Penha. Há 30 anos trabalhando na entidade, ele exerce sua terceira gestão no cargo. Penhense de nascimento, Vitale tomou o primeiro contato com o comércio nas lojas de tecidos e papelaria do pai. Hoje, se auto-intitula produtor rural, por ter algumas plantações e morar em uma chácara nos arredores, mas afirma nunca ter abandonado o espírito empreendedor. “É importante manter a mente de homem de negócios para tomar as decisões certas, que atendam aos interesses locais e beneficiem o maior número possível de pessoas”, diz. E continua atento aos problemas em todas as áreas: de mudanças no trânsito a enchentes, de camelôs a melhorias nos transportes coletivos.

Uma conquista recente da entidade foi justamente a inclusão da linha F de ônibus, que aumentou o número de coletivos com ponto final no terminal Penha. Outro projeto que entusiasma o administrador da distritalé a criação da nova estação de trem para o bairro, dentro da malha da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). O projeto ainda está no papel mas, se implantado, vai beneficiar os moradores do centro do bairro, que fica no alto do morro, onde apenas chegam os ônibus, pois a estação Penha do metrô está localizada na baixada. “Começou a ser concebido aqui na distrital”, orgulha-se.

ECONOMIA INFORMAL: UM PROBLEMA

A questão dos ambulantes figura entre os problemas mais graves da região. A velha briga entre comerciantes e camelôs está longe de acabar. Vitale acompanha de perto a ação da subprefeitura, que coloca a guarda municipal nas ruas na tentativa de proibir que sejam armadas as barracas, principalmente na Avenida Penha de França – local preferido pelos camelôs –, mas não vê uma solução rápida. “Não é uma questão apenas de mais policiamento, é preciso mudar a mentalidade das pessoas, e isso não ocorre facilmente.”

Outro projeto que é motivo de orgulho para o administrador é referente à publicidade irregular, iniciado na região pela distrital, em conjunto com a subprefeitura. Vitale diz que a aparência do centro histórico do bairro começou a melhorar depois que a Prefeitura passou a multar em até R$ 20 mil aqueles que desrespeitavam a lei. Vitale reconhece, porém, que ainda há muito a ser feito nessa área, pois as ruas do centro estão tomadas por pequenas lojas que exibem as mais diferentes placas e faixas de todas as cores e tamanhos.

Melhorar a aparência dos locais históricosé uma das metas da incipiente organização Viva Penha, que conta com a participação de moradores, alguns conselheiros da Associação Comercial e, obviamente, com o apoio da distrital. “Nossa intenção é terminar a gestão revitalizando o centro da Penha”, planeja. Entre os serviços cotidianos oferecidos aos associados está a recuperação de crédito, além do encaminhamento diário de cerca de 15 processos à Junta Comercial de São Paulo, para abertura, modificações e fechamento de empresas.

A entidade dedica parte de sua estrutura para uso da comunidade local. São organizados cursos, palestras de utilidade pública e feiras de saúde, além de passeios de automóveis antigos, concursos de som de carros e a participação ativa nas festas do bairro. Todo ano, por exemplo, envolve-se nas comemorações de 8 de setembro, aniversário da padroeira, Nossa Senhora da Penha de França. É costume a associação patrocinar os fogos de artifício, com fundos arrecadados entre os associados e outros contribuintes.
PREMIAÇÃO AOS ILUSTRES

Anualmente, a sede da Associação Comercial na Penha distribui o prêmio“Penhense Ilustre”, para aqueles que mais se destacaram na comunidade. Em 2003, foram 50 premiados, entre eles Rubens Bunas, proprietário de uma tradicional loja de artigos esportivos e Marco Antônio Jorge, dono de uma imobiliária. “Esse prêmioé bem-vindo porque mostra o reconhecimento do nosso esforço para melhorar o lugar em que vivemos”, comemora Marco Antônio Jorge.

O administrador da distrital Penha reclama que o bairro, que foi um dos primeiros a se formar na cidade de São Paulo, sempre teve que viver às próprias custas, por ter sido “abandonado pelos governantes”. Ele diz esperar que surja alguém disposto a trabalhar mais ativamente pela região. “Não temos nenhum vereador aqui. Precisamos de um projeto político para ganhar influência e força de reivindicação junto ao poder público.” Perguntado se ele próprio não seria um candidato natural, desconversa: “Eu? Não. Não nasci para a política.”

Cláudia de Souza Morelli chega da rua correndo, arfando, e explica que foi resolver negócios em bancos, porque atualmente está tocando duas lojas sozinha – “Minha cunhada, que era minha parceira, precisou sair” – e sem tomar fôlego começa a contar a história da reforma na fachada da loja, que foi mudada em prol do patrimônio histórico. “A Prefeitura deu um prazo para tirarmos o luminoso e deixarmos a frente da loja como era antigamente”, conta. Finalmente uma pausa.

A atarefada empresária faz parte da terceira geração da família Morelli, presente no comércio da Penha desde 1937 com a Casa Morelli, hoje instalada no número 23 da mais movimentada avenida do bairro, a Penha de França. A loja da família vende bolsas e cintos, pastas e outros artigos em couro. Uma filial faz o mesmo no vizinho Tatuapé. “A loja do Tatuapé é maior, mas a daqui é mais significativa, porque foi neste bairro que meu avô começou tudo”, diz Cláudia.

A história dos Morelli se entrelaça com o crescimento do bairro. O italiano Giuseppe Morelli chegou ao Brasil em janeiro de 1937, aos 26 anos de idade. Em julho do mesmo ano já abria sua alfaiataria. A rapidez de Cláudia e seu tino para os negócios, que se nota facilmente com poucos minutos de conversa, são explicados pela genealogia. Precavido, Morelli trouxe a maior parte do dinheiro dentro do sapato. O italiano não era pessoa de perder tempo, definitivamente. Uma semana depois de conhecer a penhense Maria, já estava namorando-a. “Ele sempre sabia o que queria e fazia de tudo para conseguir”, atesta a hoje viúva Maria Morelli, de 84 anos. O período de namoro durou apenas oito meses.“E não pára aí” – diverte-se Maria, conhecida no bairro como Dona Mimi – porque eu tive o primeiro filho, Francisco, apenas dez meses depois de casada.” O casal morava na casa construída atrás da alfaiataria, onde nasceram todos os seis filhos: Francisco, José, Joaquim, Maria Ignez, Mário Bruno e Carlos. Dona Mimi já soma 13 netos e seis bisnetos.

Depois de 1954, o alfaiate Morelli decidiu que fazer roupas sob encomenda já não era um negócio promissor e mudou ligeiramente de ramo, passando a vender roupas prontas, sapatos, cintos e chapéus. “Meu pai entendeu que era a hora de mudar e foi em frente sem pestanejar”, diz Francisco Morelli, o filho mais velho. O grande número de filhos levou o patriarca dos Morelli a fazer a partilha dos bens em vida.“Ele não queria desavenças na família por causa de dinheiro, então, um dia reuniu todos nós e dividiu os bens”, conta José Morelli, o segundo filho. Seu irmão gêmeo, Joaquim – morto há sete anos – foi quem decidiu continuar com os negócios.

Cláudia, filha de Joaquim, segue na administração depois da morte do pai. José e seu irmão Francisco são moradores da Penha desde que nasceram e freqüentam a Igreja do Largo do Rosário. Todos os anos, eles atuam na organização da festa da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, que em 16 de junho de 2002 completou 200 anos. São trazidos para a festa grupos de congada e outras representações folclóricas de influência negra. “Contamos com a colaboração de várias irmandades de Nossa Senhora do Rosário”, relata José. “Trabalhamos bastante, mas quando chega o dia da festa, a gente esquece tudo e cai na farra”, diz Francisco.

Os rios Tietê e Aricanduva, os córregos Tiquatira e Guaiaúna e outros afluentes da área da Penha, cuja primeira vocação foi ajudar no desenvolvimento, hoje causam as enchentes, um dos maiores problemas da região. A história registra que muito antes do bairro ser fundado oficialmente, os rios já mostravam sua predestinação em se tornar vias de acesso. Em 1561, o padre Manuel de Paiva e o Irmão Gregório Serrão, ambos da Companhia de Jesus, a mesma do padre José de Anchieta, lideraram uma expedição defensiva contra os então chamados “nativos pagãos”.

No grupo, além dos religiosos, seguiam piratininganos (os habitantes de São Paulo), mestiços e índios batizados. Como os índios rebeldes promoviam sangrentas investidas aos grupos que chegavam pelo caminho por terra, a expedição decidiu seguir por rio. Começando no Tietê, entravam nos afluentes Tiquatira e Aricanduva, que chegam ao sopé do outeiro da Penha. Dessa forma foi criado um novo caminho para o bairro, que contribuiu para a crescente penetração territorial e povoamento. O transporte fluvial foi usado durante muitos anos, tanto para evitar o risco de ataques quanto pela facilidade no embarque de mercadorias. O rio possibilitava fácil comunicação também com os povoados vizinhos de Nossa Senhora da Conceição de Guarulhos e de São Miguel, Itaquera, Itaquaquecetuba, Guaió (Suzano) e até Mogi, de onde se podia descer ao litoral.

Em tupi-guarani, Aricanduva significa “lugar onde há muitas palmeiras de espécie airi”. Até os anos de 1930 e 40, a várzea do rio na área da Penha fez jus ao nome, servindo como espaço de lazer, oferecendo área verde e águas limpas. Na época, não havia construções na várzea, respeitando as cheias naturais que ocorriam no verão – e que hoje dão lugar às desastrosas enchentes. A canalização do Aricanduva propiciou a ocupação do solo ao redor, mas a força das águas acabou aparecendo.

De acordo com informações da Subprefeitura da Penha, somente este ano foram atingidas pelas águas dos córregos 2.237 casas na região. Segundo a entidade, as medidas que serão tomadas para resolver o problema, incluem “intensificação da limpeza de bueiros e córregos, estudo de obras e serviços para contenção de encostas, como também outras obras, como a canalização do Córrego Rincão, entre as Ruas Guaranésia e Monte Sião.”

SOLUÇÕES PARA AS ENCHENTES

O arquiteto Edison Ivanov, professor do Senac São Paulo na área de urbanismo, critica as medidas que chama de “paliativas”, argumentando que o problema das enchentes só pode ser resolvido com a reurbanização das várzeas, aproveitando a região
para a criação de mais áreas de lazer. Um projeto na várzea do Tietê desenvolvido por ele prevê, em primeiro lugar, o plantio de árvores. “A idéia com isso é criar microclimas e melhorar a temperatura quente da região, que tem pouquíssimo verde”,
explica. “O rio pode voltar a ser área de lazer, com integração da família, construção de campos de futebol e outros equipamentos voltados para a população.”O investimento para essas obras poderia vir, segundo Ivanov, poupando-se a verba gasta em piscinões e obras vistas por ele como deficientes.“Se considerarmos todo o dinheiro gasto nos piscinões do Aricanduva, somado com o despendido no complexo viário que destruiu a cara da região, já teríamos capital para a recuperação da várzea na região da Penha.”

CLUBE ESPORTIVO À BEIRA-RIO

O Clube Esportivo da Penha (CEP), cuja existência está intimamente atrelada ao rio que corta a região,é uma instituição que faz parte da vida dos penhenses desde 1930. Com 12 mil sócios e localizado no centro do bairro, tornou-se ponto de referência. Em uma região em que quase não há árvores, abriga 160 mil metros quadrados de área verde. “Temos aqui pelo menos 10 mil árvores”, diz Affonso Lenzi, presidente do clube desde 1993.

Pelo menos dentro das dependências do clube, o ideal proposto por Ivanov é realidade. E já foi melhor quando o Tietê adentrava o CEP. O clube surgiu pelas mãos de um grupo de dissidentes do “Regatas da Penha”, liderados por Plínio Augusto de Camargo. Na época, a sede resumia-se a uma quadra de esportes e a um galpão com vestiário. Mas logo voltou-se para sua vocação natural: as atividades aquáticas. Com o Rio Tietê margeando o clube, o penhense passou a ter uma gama de atrações: o cocho (piscinas naturais flutuantes), trampolins, passeios de barcos, prática de remo e competições na água. O clube destacou-se nos esportes aquáticos até a década de 1950, com campeonatos, como o famoso “Volta da Penha a Nado”, do qual participaram atletas como João Havelange.

E o clube investia também em esportes terrestres. Em 5 de abril de 1931, acontecia a primeira Volta da Penha, disputada por 106 corredores. Por volta de 1953, o traçado do Tietê foi mudado. A “praia” foi afastada e o CEP se viu seriamente ameaçado. Com o desvio do rio, o clube perdera seu maior atrativo e, conseqüentemente, quase todos os sócios. Então, dirigentes como Ferruccio Michelotto e João Antonio Sanches Conessa, conduziram campanhas para conseguir atrair sócios e manter vivo o clube. E começaram um plano de arborização da área, antes ocupada pelas atividades ligadas ao rio, que resultou no espaço ecológico queé hoje.

É dessa época também o ginásio – que até meados dos anos 80 sediou competições esportivas internas, foi palco dos carnavais penhenses e de parte da vida social do bairro. O último recurso para atrair sócios foi a construção de piscinas. Com as reformas, voltaram os sócios. Na nova fase, começou-se a praticar boxe, atletismo, basquete e bocha. Hoje, há também locais para a prática de tamboréu (jogo em que se utiliza pandeiro e peteca ou, às vezes, pequena bola de borracha), 12 quadras de tênis, 3 campos de futebol, ginásio com quadras poliesportivas (futebol de salão, vôlei, basquete, handebol), pista de patinação, ginásios de bocha e malha, balneário com cinco piscinas, entre outras áreas. As atividades sociais aumentaram com a construção de outros salões de festas.

De herança do Tietê, sobrou a lagoa,às margens da qual os penhenses ainda pescam e fazem piqueniques nos fins de semana de sol.

Até o final do século 19, a Penha aparecia nos mapas de povoamento como uma freguesia distante do centro de São Paulo, ficando clara a existência de um enorme descampado entre o bairro e a cidade. Para percorrer essa distância de cerca de dez quilômetros, hoje existe metrô, algumas linhas de ônibus, além das vias Radial Leste e Marginal Tietê, para quem vem de carro.

Mas naquela época, andava-se a pé, a cavalo ou nos bondes, pelo Caminho da Penha (Avenida Rangel Pestana, continuada pela Celso Garcia). Existiam, então, os bondes alimentados a vapor e os puxados por parelhas de burros, que entraram em circulação a partir de 12 de outubro de 1872. Em 1889, funcionavam várias linhas por tração animal. Quatro companhias exploravam o transporte. A de Rudge Ramos foi a que obteve autorização para operar a linha Penha. Durante muitos anos, os penhenses, os grandes proprietários rurais do bairro, visitantes e devotos de Nossa Senhora da Penha de França tinham por meio de transporte o bonde puxado por burros, cujo ponto final era local onde hoje funciona a estação Penha do metrô. Os mais modestos subiam a pé a ladeira até a igreja, enquanto os endinheirados completavam o percurso a cavalo ou tílburi – pequeno carro de duas rodas e dois assentos, sem boléia, com capota, e tirado por um só animal.

A primeira linha de bondes elétricos, operada pela São Paulo Tramway Light and Power Company Limited (antiga Light), partia da Barra Funda para o centro da cidade, e foi inaugurada em sete de maio de 1900. A linha que chegava ao centro da Penha surgiu em janeiro de 1901. Na época, também foram beneficiados com linhas elétricas os bairros de Ipiranga, Santana e Pinheiros. De 1930 a 1950, funcionou a linha Largo do Tesouro-Praça 8 de Setembro. A partir de 1950, havia a Praça da Sé- Praça 8 de Setembro. Em 1960, surgiu a linha Penha-Lapa.

O chamado Bonde para Operários carregava passageiros espremidos em duros bancos de madeira. Além de trabalhadores da indústria, transportava verdureiros da Penha que vendiam suas hortaliças no Mercado Municipal. Os bondes, em virtude das dezenas de paradas e da proverbial cortesia de motorneiros e cobradores, acabaram ficando marcados pela morosidade.A linha seis da Penha favoreceu o processo de urbanização das regiões que ladeavam a ex-Estrada da Penha, como Brás, Belém e Tatuapé. Tal foi a procura pelo bonde da Penha, que ninguém mais se interessou pelo trem Ramal Penha da Estrada do Norte, que parou de circular em 1904 por falta de usuários.
OS PRIMEIROS ÔNIBUS

Nesse período de tráfego de bondes elétricos, surgiram também empresas de ônibus. Os coletivos fizeram sucesso e se expandiram extraordinariamente. Os primeiros funcionaram em 1925, e em 1930 já haviam 400 carros para atender a uma população de 890 mil habitantes. Em 1934, existiam 700.

Atualmente, segundo estatísticas da SPTrans, cerca de 5 mil ônibus transportam 85% dos paulistanos. Os bondes elétricos operaram na Penha até abril de 1966. Com a desativação do sistema de bondes, as empresas particulares aumentaram gradativamente sua participação na operação de linhas de ônibus, e foi criada a Secretaria Municipal dos Transportes.

Em 1968, os bondes pararam de circular em toda a cidade de São Paulo. Hoje, operam na Penha diversas empresas de ônibus, entre elas a Empresa Auto Ônibus São Miguel, Empresa de Auto Ônibus Vila Esperança, Viação São José, Viação
Urbana Penha, Empresa de Ônibus São Geraldo, Empresa de Ônibus Guarulhos. A empresa de ônibus Leste- Oeste ficou conhecida por Penha-Lapa, em razão da famosa linha que já foi a mais extensa da cidade. A frota de ônibus que serve o bairro é de 770 veículos, com 60 linhas, atendendo a 49 vilas. Dessas linhas, 37 se destinam ao centro da cidade. Em média, essas empresas transportam 500 mil usuários da região diariamente.

O metrô Penha, inaugurado em 31 de maio de 1986, facilitou a vida dos penhenses. Segundo estatísticas da Companhia do Metropolitano de São Paulo, 20 mil passageiros por hora usam a estação nos horários de pico, diariamente. O metrô Penha, no entanto, não chega ao centro do bairro. Por esse motivo, um grupo de comerciantes e técnicos elaborou o projeto para a nova estação de trem, dentro da malha da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), que seria construída ao lado do terminal de ônibus, este localizado no alto da ladeira da Penha, ao lado do Mercado Municipal. “Esse projeto, se implementado, vai devolver aos penhenses algo que já se tinha no início do século: um trem chegando ao centro do bairro, pois no começo do século 20, o bonde deixava os moradores em plena avenida Nossa Senhora Penha de França; o metrô só chega até o sopé do monte”, aponta o professor Francisco Folco, estudioso da história da Penha.

Com intuito de recuperar marcos históricos, construções e a tradição do bairro, um grupo de penhenses organizou a entidade Viva o Centro da Penha. O idealizador e entusiasta do projeto é Manuel Gonçalves, 46 anos. Português de nascimento, depois de 34 anos morando no Brasil, sempre cidade de São Paulo, diz ter se tornado “paulistano por adoção e penhense histórico, patriótico e convicto”. Dono da Arte Flora, loja de flores e presentes que nasceu há 33 anos como Floricultura Nossa Senhora da Penha, Gonçalves organizou em janeiro deste ano a primeira reunião para tratar do assunto. Conselheiro da Distrital Penha da Associação Comercial, ele conseguiu reunir moradores e seus colegas comerciantes, entre eles o engenheiro José Donato Feola e o jornalista Eugênio Cantero.

A Associação Viva o Centro da Penha divulgou em fevereiro um documento no qual afirma que seu objetivo é “promover o desenvolvimento da área central do bairro Penha de França e de seus aspectos urbanísticos, culturais e econômicos, a fim de transformá-lo num grande, forte e eficiente centro, que contribua para o equilíbrio econômico e social e o bem estar da população.”

O arquiteto Edison Ivanov, que fez vários estudos sobre a região, aplaude a iniciativa. Professor do Senac São Paulo na área de urbanismo, Ivanov tem algumas propostas para melhorar o centro da Penha e com isso diminuir o êxodo constatado nas últimas contagens de população. Segundo o censo de 2000 feito pelo IBGE, a Penha perde todo ano 0,93% de sua população.“Nos últimos anos, o comércio ambulante, o trânsito maluco, a falta de segurança e de equipamentos de lazer e cultura, levaram ao êxodo de mais de 50% de sua população original. É preciso retomar a moradia nestas áreas”, defende. Em um passeio pelo centro do bairro, o urbanista apontou problemas e sugeriu soluções.“As construções estão poluindo cada
vez mais, com todas essas placas, luminosos, fachadas sem cuidado: o visual desagrega valor à região”, disse sobre a disposição das lojas ao longo da principal avenida, a Penha de França.

ESPAÇO PÚBLICO MAL CUIDADO

No Largo do Rosário, onde fica a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, tombada pelo patrimônio histórico, Ivanov aponta que o tombamento “não tem raio de influência”. Ou seja, a igreja, com suas paredes de taipa preservadas, possui um entorno com construções visivelmente deterioradas. “É fundamental que os comerciantes locais, as entidades de classe e os moradores se reunam e passem a cobrar melhorias do poder constituído”, incentiva. “A Penha funciona como porta de entrada da zona leste, sendo um fantástico eixo de comércio e serviços e precisaria ser melhor cuidada.” Esse é um dos pontos particularmente caro aos organizadores da Viva o Centro da Penha, cuja carta de intenções diz que “a qualidade do espaço públicoé requisito básico para o pleno exercício da cidadania e a identidade desse centro, do bairro da Penha, resultará de um processo no qual os valores do seu patrimônio histórico, arquitetônico, cultural e econômico serão percebidos pelos cidadãos.”

Entre os mais ativos membros da associação está Eugênio Cantero, dono do jornal Gazeta Penhense. Presente em todas as reuniões, palestras, agremiações, festas e acontecimentos, ele justifica na profissão sua onipresença: “Vou a todos os lugares por obrigação do ofício: preciso ficar informado”. Mas a atuação de Eugênio, conhecido na região como “Geninho”, vai além da tarefa de se manter informado. Ele usa seu jornal para fazer campanhas em prol das famílias que perderam bens com enchentes, ajuda a arrecadar verbas para a festa da padroeira, integra comissões que estudam melhorias para as ruas do bairro e até escreveu uma singela carta exaltando as qualidades dos poemas de Elisa Barreto, para ajudar na campanha da poetisa que reivindica o Prêmio Nobel da Paz.

Francisco Folco, 52 anos, dono da escola de artes Viveka, é o guardião das imagens da Penha. Sempre foi interessado na história do bairro, onde mora desde criança, e em 1997 começou sua carreira como historiador amador. Ao fazer um registro fotográfico da arte sacra da Igreja de Nossa Senhora da Penha de França, que teve suas paredes e tetos pintados por seu avô, Alfredo Cespi, encontrou em seu interior uma coleção de fotos exibidas no terceiro centenário do bairro, em 1968. Organizadas por Hedemir Linguitte, antigo morador, as imagens estavam em péssimo estado de conservação. “Estavam sujas, mofadas, com manchas de água de chuva e algumas até rasgadas”, conta ele. Ao perceber o valor histórico do achado, Folco iniciou um trabalho de recuperação das imagens, utilizando recursos digitais. “Levei três anos, mas consegui recuperar cada detalhe das fotos”, diz. Com o material em mãos, Folco montou um CD-Rom,“Retratos da Penha”, que traz 421 imagens do bairro, desde 1905 até os dias de hoje. Ele vende o CD-Rom por R$ 20 e destina o lucro obtido a patrocínio de eventos culturais no bairro da Penha. O material fica à venda na Viveka – Escola de Arte e Criação, na Rua Betari, 560, Penha, São Paulo, telefone (11) 294-6833.

O ator Marcos Winter nasceu e cresceu no bairro da Penha. Hoje vive no Rio de Janeiro, atua em televisão, teatro e cinema, além de coordenar a organização não-governamental Movimento Humanos Direitos, que luta pelo fim do trabalho escravo no Brasil. A última aparição do ator na tevê foi na série Um Só Coração, no papel do jornalista Luís Martins, com quem Tarsila do Amaral (Eliane Giardini) fica casada durante boa parte da trama.

Marcos César Simarelli Winter não é apenas um penhense famoso, mas um paulistano apaixonado.“Adoro São Paulo e sempre que posso volto à cidade”, diz. Sua mãe, Odete, de 75 anos, ainda mora em uma casa da Rua João Ribeiro, uma das vias mais movimentadas do bairro, principalmente depois de 1992, com a abertura, no número 304, do Shopping Center Penha. “Minha memória sobre a Penha é muito vasta”, afirma o ator. “Passei a maior parte da vida lá”. Atualmente com 37 anos, ele morou no bairro até os 20. “Lembro muito vividamente de brincar de esconde-esconde no clube esportivo: o esconderijo podia ser em qualquer lugar do clube, o que fazia o jogo durar o dia inteiro”.

Da adolescência, Winter diz ter guardado lembranças ainda melhores.“Ah, como eram boas aquelas brincadeiras de moleque maior… quando freqüentava a parte de baixo do campo de futebol para dar os primeiros beijos”. Conhecido pelos amigos de infância como “Macarrão”, ele diz adorar ser chamado pelo apelido, por remetê-lo à época em que “andava tranqüilo pelas ruas da Penha com meus amigos, ia para o colégio e para a balada, e a vida era simples e gostosa”. Ele estudou na escola estadual da Penha e no grupo escolar Santos Dumont, tradicional colégio do bairro, cursando depois Educação Artística na faculdade São Judas, na Mooca.“Antes de mudar para o Rio de Janeiro, me mantive na Zona Leste de São Paulo.”

UM POEMA PARA O PRÊMIO NOBEL

Elisa Barreto, de 81 anos, e Paulino Rolim de Moura, de 86, também têm toda sua história entrelaçada à do bairro. Se conheceram na Penha, casaram-se na Igreja Matriz Nossa Senhora da Penha de França, mudaram da cidade duas vezes, mas acabaram voltando a morar ali. “Não nos acostumamos em outro lugar”, dizem. Agora, querem trazer para a Penha o Prêmio Nobel da Paz. Elisa tem oito livros de poesia publicados e este ano enviou sua inscrição para concorrerà consagrada premiação. A antiga idéia foi retomada em 2003 pelo casal, quando Elisa compôs Paz, poema que exalta a importância em se obter a paz mundial. Seu marido gostou tanto que mandou construir uma escultura em aço escovado e vidro, na qual gravou o poema, e a peça foi chamada de “Homenagem à ONU”. Os versos, com fotos da obra foram enviados a diversos artistas, escritores, poetas brasileiros e estrangeiros, além de políticos, dirigentes e organizações. Uma das entidades que receberam o poema, já vertido para o inglês, foi a Organização das Nações Unidas (ONU). “Sempre achei que o Brasil deveria concorrer ao Prêmio Nobel da Paz. O prêmio tem 103 anos e nenhum brasileiro jamais ganhou”, argumenta Paulino.

Ele mostra orgulhoso o recibo do correio, no qual consta a postagem do volume de 730 gramas enviado ao comitê do Prêmio Nobel, na Noruega. Integram o dossiê uma cópia do poema em homenagem a John Kennedy publicado na Times of Brazil, cartas de amigos e admiradores de Elisa – incluindo uma do jornalista Eugênio Cantero, dono da Gazeta Penhense –, a resposta de Kofi Annan a uma carta sua, recortes de jornais e revistas, entre outros documentos. Na entrada do escritório, que fica no quintal da casa, um painel exibe a letra do Novo Hino Nacional, escrita também por Elisa. Mudar a letra do hino brasileiro é outra causa pela qual o casal vem trabalhando.“A letra atual é elitizada e longa demais, o hino precisa ser acessível ao povo”, defendem Paulino e Elisa. A nova letra, que se encaixa na melodia original composta por Francisco Manuel da Silva, tem apenas cinco estrofes, e o refrão é: “Brasil, este gigante bem desperto,/ cuja grandeza a todos extasia,/ expõe seu patrimônio a céu aberto,/ nas lutas, na vontade e na energia.”

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